Horta e História: diálogos pertinentes
A alimentação (e suas relações) como temas articuladores para o ensino de história
Apresentação
Sejam bem-vind@s professo@s.
Este site é destinado principalmente a(o)s docentes de história e tem por objetivo contribuir com reflexões e proposições para o ensino de história. O material foi elaborado a partir da avaliação dos resultados de uma pesquisa-ação realizada com estudantes da EJA de São José entre 2017 e 2018. Tal intervenção foi pensada e elaborada durante o mestrado profissional de ensino de história e contou com o apoio imprescindível da CAPES.
O intuito do site é reunir vários tipos de materiais didáticos virtuais como fontes históricas, vídeos, filmes, artigos, bem como outras informações para que o(a) professor(a)-pesquisador(a) possa acessar, pesquisar e compor seu material didático para as aulas conforme julgar pertinente.
O tema central é a ALIMENTAÇÃO E SUAS RELAÇÕES. O foco principal é a possibilidade de abordagens e problematizações possíveis utilizando as temáticas que se desdobram a partir do tema central. A metodologia prevê a prática da horta articulada ao aprendizado de história.
Parte desse material foi utilizado em um projeto piloto com alunos em 2017. Contudo, conforme avançavam as pesquisas, mais materiais interessantes me foram apresentados e eu pude incluí-los aqui, posteriormente ao término do projeto. O material, aqui reunido, pode ser adaptado para outros grupos de estudantes.
"Alimentando", na medida do possível, este "locus virtual de material didático", (tanto com material como com questionamentos e sugestões) acredito poder contribuir para uma maior divulgação e democratização das informações, incentivar a prática da horta como ato político consciente de empoderamento popular bem como ampliar as discussões acerca das muitas possibilidades do ensino de História como disciplina fundamental para a conscientização crítica e construção da cidadania.
RESUMO DO PROJETO
O presente trabalho, que é parte integrante da dissertação de mestrado "CIDADANIA E PARTICIPAÇÃO POR MEIO DAS HORTAS ESCOLARES: A ALIMENTAÇÃO COMO TEMÁTICA PARA O ENSINO DE HISTÓRIA NA EJA DE SÃO JOSÉ/SC", foi pensado e elaborado durante o Mestrado Profissional de Ensino de História (PROFHISTÓRIA) da UFSC entre 2016 e 2018, e proposto pela primeira vez para o ensino de Jovens e Adultos (EJA), na escola CEMIA em São José.
Tal intervenção educativa tem por objetivo principal propor um diálogo acerca das possibilidades de articulação da horta escolar com o ensino temático de história. A metodologia prevê a organização dos trabalhos de pesquisas sobre as alimentação, enquanto tema problematizador, juntamente com a prática da horta. Para isso, a temática central foi dividida em: Relações de Trabalho e Propriedade; Produção de Alimentos e Meio Ambiente; Indústria e Consumo e Patrimônio Histórico.
A alimentação, assim como a horta (e todos os conhecimentos ali implícitos), são milenares e foram essenciais à sobrevivência humana durante toda a História. O ato de alimentar-se é cotidiano repleto de identidades pessoais, sociais, culturais e históricas que muitas vezes ficam veladas ou são intencionalmente substituídas por uma cultura dominante, colonizadora e industrial. Nos dias de hoje, o ato de se alimentar de forma mais consciente pode, assumir mais visivelmente uma face político-ativista de valorização das identidades, dos saberes tradicionais, do trabalho digno, e do comércio justo, respeitando o meio ambiente, atuando na contracorrente da globalização mundial. A produção, o preparo e o consumo de alimentos mobilizam (e sempre mobilizaram) diversos setores da sociedade que foram e são locomotivas de múltiplos movimentos sociais históricos e que se fazem presentes na atualidade. O estudante, bem como o cidadão, devem estar conscientes disso.
As pesquisas temáticas em torno da alimentação - tema problematizador - podem auxiliar o estudante a perceber as relações sociais, políticas, históricas e culturais que implicam (e implicaram) nossas escolhas alimentares e nos consequentes desdobramentos políticos, econômicos e sociais que isso engendra. É a partir dessa percepção crítica da realidade, segundo Paulo Freire, que se pode contribuir para formar uma consciência crítica. ]
A prática da horta escolar concomitante aos estudos foi concebida como atividade mobilizadora de troca de conhecimentos, assim como uma oportunidade de formação de um locus de aprendizagens históricas num processo de empoderamento dos alunos no que tange o conhecimento da produção e o consumo de alimentos, bem como a sensibilização para as questões do trabalho, do meio ambiente e das lutas sociais que fazem e fizeram parte da nossa história. Por esse motivo urge chamar atenção e colocar na pauta das aulas de História tais reflexões, trabalhando esses temas tão presentes, tão históricos e que muitas vezes chegam aos estudantes de forma parcial, descontextualizada e pouco historicizada. Dessa forma pode-se contribuir para a formação de uma consciência sócio-histórica-cultural e alimentar e estimular a participação ativa do educando na construção do seu conhecimento e da sua cidadania.
As cozinhas locais, regionais, nacionais e internacionais são produtos da miscigenação cultural, fazendo com que as culinárias revelem vestígios das trocas culturais. Hoje, os estudos sobre a comida e a alimentação invadem as Ciências Humanas a partir da premissa de que a formação do gosto alimentar não se dá, exclusivamente, pelo seu aspecto nutricional, biológico. O alimento constitui uma categoria histórica, pois os padrões de permanência e mudanças dos hábitos e práticas alimentares têm referências na própria dinâmica social. Os alimentos não são somente alimentos. Alimentar-se é um ato nutricional, comer é um ato social, pois constitui atitudes ligadas aos usos, costumes, protocolos, condutas e situações. Nenhum alimento que entra em nossas bocas é neutro. A historicidade da sensibilidade gastronômica explica e é explicada pelas manifestações culturais e sociais como espelho de uma época e quem arcaram uma época. Neste sentido, o que se come é tão importante quanto quando se come, onde se come, como se come e com quem se come. Enfim, este é o lugar da alimentação na História.
SANTOS, C. R. A. dos. A alimentação e seu lugar na História: História: Questões & Debates, Curitiba, n. 42, p. 11-31, 2005. Editora UFPR
O que você encontra neste site?
Organizei os materiais (fontes, links...) por eixos temáticos que se dividem em quatro blocos ou eixos: Indústrias e Consumo; Produção de Alimentos e Meio Ambiente; Relações de Trabalho e Propriedade, Patrimônio Histórico) . Cada eixo temático está dividido por conceitos e temas . Entretanto as temáticas "se movimentam", se conectam e dialogam entre si. Penso ser necessário que estas relações possam ser percebidas e apreendidas. Por este motivo, além dos textos, este site remete a outros links: sites, blogs, vídeos, textos em PDF, revistas, etc.
Neste site comento um pouco sobre a metodologia adotada no projeto, ou seja, o por quê de uma horta escolar no ensino de história.
Você encontrará também materiais que podem auxiliar o(a) professor(a) de história a fazer uma horta: informações sobre composição do solo, passo a passo de uma composteira, utilização de plantas que podem se consorciar ou seja, as plantas "amigas" (que podem ser plantadas juntas) e as plantas "inimigas". Também há materiais sobre maneiras de plantio, composição das plantas, além das etapas do processo, propostas de atividades com videos, entre outros.
Através desta proposta e da seleção desses materiais, os objetivos são, que os professores juntamente com os educandos , possam, neste processo de trabalho reflexivo e de debate em conjunto: conhecer mais profundamente, refletir, apreender, ressignificar e historicizar temas afins ou conflitivos; analisar conjunturas históricas e as múltiplas construções históricas, percebendo o momento histórico no presente e sua relação com o passado através da temática da alimentação.
Neste sentido, a prática da horta escolar pode contribuir para incentivar a participação dos estudantes na tomada de decisões, estabelecendo diálogos, estreitando relações interpessoais, promovendo a troca de experiências e de aprendizados. Além de incentivar e instrumentalizar para a prática de plantio, preparo e consumo de alimentos saudáveis, contribuindo para formação de uma consciência alimentar, que também é histórica, social, cultural e política.
INTRODUÇÃO
Desde a aurora da Humanidade nós, humanos, temos aprendido a conviver e, sobretudo, a dominar nosso habitat. Durante milênios, o ser humano construiu seu conhecimento através da vivência, da observação das experimentações e interações com seu meio. Tais conhecimentos foram sendo ampliados e transmitidos, através das gerações, e serviram para satisfazer as necessidades básicas de sobrevivência, reprodução, evolução e formas de expressão social e cultural. (FLANDRIN, MONTANARI, 1996). A humanidade também passou por períodos de privações alimentares.
Foi por meio da prática desse conhecimento - da caça e da coleta, também por meio de produção de pequenas hortas, de campos de agricultura, e/ou da criação de animais - que a humanidade assegurou sua autonomia alimentar através das gerações.
A História da Humanidade é a também a história das lutas e (sobre)vivências, o que inclui a causa alimentar e as redes de relações que se estabelecem em torno dela. Refiro-me aos os processos de produção, de preparo e de consumo, que compreende as relações sociais, históricas, manifestações étnico-culturais, formas e relações de trabalho, trocas econômicas e culturais e construção de identidades.
Toda alimentação dos seres vivos provém do mundo natural, porque somos seres orgânicos, constituídos, organicamente, de elementos presentes na natureza como água, matéria orgânica composta de moléculas como proteínas, ácidos e açúcares e elementos minerais. O ser humano não é capaz de sintetizar suas próprias substâncias a partir da água e do gás carbônico como fazem as plantas (autotróficas). Somos seres heterotróficos. Precisamos ingerir alimentos que contenham as moléculas que necessitamos. "O homem e os animais, sejam eles consumidores de produtos vegetais (consumidores primários) ou de produtos animais (consumidores secundários ou terciários), constituem sua própria substância orgânica das matérias orgânicas inicialmente produzidas pelos vegetais." (MAZOYER E ROUDART. 1997. P.78)
Mas o que estamos ingerindo hoje? Estamos suficientemente alimentados? Nos alimentamos de quê? Como obtemos nosso alimento? E por quê é assim?
Precisamos talvez refletir sobre o histórico da humanidade e nossas necessidades atuais. Alguns dados podem nos ajudar a começar a refletir sobre o tema:
- O Relatório da FAO de 2017 estima que há pelo menos 815 milhões de pessoas com fome no mundo. Nos alimentamos com apenas 0,06% dos alimentos comestíveis do mundo
- Segundo Kinupp (2015) 90% do alimento mundial vêm apenas de 20 espécies. Existem mais de 300 espécies comestíveis nativas ou exóticas cultivadas no país que são ignoradas, mal conhecidas ou negligenciadas.
Então me pergunto: o que realmente nos falta? De que precisamos?
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